O meu
olhar mira o céu rasgado em estrelas, meu coração se rasga em lágrimas, não
tenho mais força para fazê-lo, sendo assim dói ainda mais, exatamente por
queimar-me por dentro, por destruir as minhas estruturas emocionais construídas
em terreno arenoso... pouco sólido. Tenho saudades do tempo antes do
tudo. Do tempo em que meu coração era só o nada, de quando ele batia apenas por
meus sonhos. Hoje minha alma em retalhos, se rende ao vazio, ao silêncio, a
ausência...
Não
minha amada... Não se dê tanta importância, seja apenas o que lhe cabe ser. Teu
perfume ainda invade minhas narinas, as tuas formas ainda preenchem as minhas
mãos e os meus braços ainda sonham em ser donos de teus abraços. Vã esperança.
Tua voz rouca e embriagada de viver, cansada dos cigarros que fumaste e doce
dos beijos que um dia me foram endereçados, reverbera no meu subconsciente.
Único lugar onde eu posso amar-te incondicionalmente.
O tempo
se esvai como água em meus dedos e lava as feridas que deixaste abertas, em
sangue pulsante. Talvez eu precise levar alguns pontos, não sei dizer ao certo.
Mas quem se importa? Você muito menos não é mesmo minha flor? Teu coração
vagabundo já está em cada esquina da cidade, bebendo e sorrido e cantando e dançado
e fintando os olhos de outros amores, estes, completamente cheios de nada. Teu
caminhar me dá asco. És leviana! Vulgar! És nada!
Em meu
peito reside um mar revolto em tempestades, amargo... pobrezinho... E vive hoje
de migalhas de ti, como um pedinte calado que estende a mão carecendo colo e
recebe apenas o teu olhar piedoso a dizer: "tenho não." Vira-se
de costas e segue te caminho. Ele fica lá, em braços estendidos.
Fecho os
olhos e estás ali diante de mim. Sublime. Sorriso rasgado. Pele macia. Um
brilho no olhar de lembrar mil constelações dedicadas a tua beleza. Eu lhe
coroei minha rainha e a condenei ao meu amor. Pus uma flor em teu cabelo. Você
sorriu e me olhou com ternura. Eu a envolvi. E num segundo estávamos no
assoalho da sala nos amando. Como se fosse o fim de nossas vidas. Como se fosse
para sempre. E por fim abro os olhos. Estou só, junto a mim uma garrafa de
uísque 12 anos e o gato que acabara de chegar protestando de fome, exigindo
carinho.
Não se
dê tanta importância minha amada... tudo isso passa. Ou melhor, já passou. Não
és mais minha pequena. Pergunto-me se um dia chegaste a ser. Pouco importa
agora. Não és mais uma menina. És uma mulher vestida de despudor e desejo. Uma
mancha em minha memória.
Autor conhecido
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