Essa noite eu sonhei com qualquer coisa de boa. Não lembro direito o que foi, apenas tenho certeza de que foi algo bom, acordei de bem comigo mesmo. foi de abrir os olhos e um sorriso junto assim de leve. De me esticar preguiçosamente na cama até querer fechar os olhos e querer voltar pra dentro do sonho. Pena nunca ser possível parar um sonho e voltar de onde paramos. Pena mesmo. Acordar torna-se uma incrível insatisfação. De esfregar os olhos em protesto ainda tentando decidir se voltar a deitar-se ou luta para estar na vertical e providenciar o café da manhã. "Refeição mais importante do dia" dizem os médicos.
Foi-se embora o sono. Os pés descalços tocam o chão frio e logo se dão conta de que o quarto precisa ser varrido. Urgentemente. Coisa mais irritante é um chão coberto por grãozinhos de areia. Um arrepio longo me corre a espinha. Argh! Café da manhã. Pão brioche com requijão, talvez uma ou duas laranjas, as bananas estão madura demais, vão virar doce antes que seja tarde... Um enorme panetone no centro da mesa e o queijo do reino em seu amarelo forte estam ali para lembrar em que período do ano estamos. 31 de dezembro. Mas hora vejam só, é o ultimo dia do ano!
Enquanto a pitombeira do quintal dança com o vento, me dou conta de que estou só em casa. A máquina de lavar trabalha penosamente lavando as roupas da semana inteira e uma pilha de pratos sujos me aguardam na pia. Sentada na mesa, enquanto passo requeijão no primeiro pão brioche reparo num feixe de luz que o telhado deixara escapar. O efeito era semelhante ao que se tem na câmara escura e logo reparo na projeção das núvens que passeiam no céu de forma despreocupada. Um espetáculo particular para mim que me deixei ficar a ver navios.
Um bem ti vi curioso pousa na janela da cozinha e esquadrinha o cômodo para assegurar-se de que é seguro estar ali, ou de repente até entrar sem por em risco a própria vida. Alguns saltinhos de um lado para o outro nos umbrais da janela e a cabeça levemente lateralizada, como que busca uma outra perspectiva para o ponto de vista que tomou para si naquele instante. Outro bem ti vi canta no quintal como um chamado, num razante este vai embora. Encontrar o amigo que o chamara? Vai saber. Apenas foi embora.
A máquina de lavar agora começa a centrifugar as roupas. Hora de decidir o que vai ser de mim de agora em diante. Sei lá. Difícil falar assim se sopetão. Apenas quero qualquer coisa de boa em 2012. Isso aí já seria suficiente para me reder alguns sorrisos e encher meu coração de satisfação. O bem ti vi voltou. Está agora pousado no chão, próximo a porta dos fundos, uns dois metros da mesa onde sentei para tomar café. Carrega alguma coisa no bico. Um graveto. Para compor o ninho que abriga os filhotes certamente. E eu ali. Estática. Esperando o primeiro movimento dele para que então decidisse qual seria o meu.
Entrou na casa. Pousou na mesa. Deixou o gravetinho que carregava no bico. Sibilou algumas notinhas e foi embora. E eu dura sem acreditar no que acontecia. Os olhos embotados dde lágrimas, ouvindo bem de longe: "bem ti viiiiii! bem ti viiiii!".
Em 2012, qualquer coisa de boa assim já está de bom tamanho.

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